A IA pode repetir o erro mais longo da Revolução Industrial
A Revolução Industrial enriqueceu o mundo, mas os salários ficaram parados por 80 anos. A inteligência artificial pode repetir essa história?

Comecei a programar com 11 anos e, desde então, vi a tecnologia prometer muita coisa. Algumas promessas viraram realidade, outras viraram bolha. Por isso, quando leio uma análise sobre IA que olha para trás antes de olhar para frente, eu presto atenção. Foi o caso de um artigo da Caixin, revista econômica chinesa, republicado pelo Poder360 neste fim de semana. Ele faz uma pergunta que quase ninguém está fazendo: se a IA der certo, quem fica com o dinheiro?
Computador em todo lugar, menos nas estatísticas
Nos anos 80, o economista Robert Solow notou algo curioso. Os computadores estavam em todo escritório, mas a produtividade da economia não subia. Isso ficou conhecido como Paradoxo de Solow.
Com a IA está acontecendo algo parecido. Todo mundo usa, toda empresa anuncia, bilhões estão sendo investidos. Mas transformar tecnologia em ganho real de produtividade demora. Processos precisam mudar, pessoas precisam aprender, e medir isso é difícil. Quem viveu a bolha das pontocom sabe que é possível investir muito antes do resultado aparecer. Às vezes, o resultado nem aparece. Como eu costumo dizer, a teoria é muito boa, mas na prática a teoria é outra coisa.
O problema de dar certo
O ponto mais interessante do artigo é outro. Vamos supor que a IA cumpra tudo o que promete. As empresas produzem mais, gastando menos. Ótimo, certo?
Depende. A história tem um exemplo incômodo. Depois da primeira Revolução Industrial, a Inglaterra passou a produzir muito mais. O PIB cresceu, as fábricas se multiplicaram. Mas o salário real de quem trabalhava nelas ficou praticamente parado por cerca de 80 anos. Os historiadores chamam isso de "Pausa de Engels", em referência a Friedrich Engels, que descreveu a vida dos operários daquela época.
Oitenta anos. Foram três gerações de pessoas trabalhando em uma economia cada vez mais rica sem ver essa riqueza chegar em casa. Não é coincidência que foi nesse período que Marx escreveu suas obras mais conhecidas.
Muita oferta, pouca gente para comprar
O risco que o autor aponta é o seguinte. Se os ganhos da IA ficarem quase todos com quem é dono da tecnologia e do capital, e o trabalho humano perder valor, as pessoas vão ter menos dinheiro para gastar. E uma economia em que se produz cada vez mais, mas se consome cada vez menos, fica desequilibrada.
A China, inclusive, já sente algo assim hoje: capacidade enorme de produção e consumo interno fraco. A IA pode ampliar esse problema no mundo todo.
É um paradoxo curioso. A economia sempre partiu da ideia de que os recursos são escassos e os desejos são infinitos. A IA pode criar abundância, mas sem gente com renda para aproveitar essa abundância.
O que dá para fazer
O artigo propõe dois caminhos. O primeiro é das empresas: usar a IA para ampliar o que as pessoas conseguem fazer, e não só para cortar gente. O segundo é do poder público. As ferramentas econômicas tradicionais foram feitas para crises passageiras. Se a queda na demanda for permanente, vai ser preciso pensar em soluções novas.
Minha leitura
Trabalho com tecnologia há muito tempo e uso IA todo dia, no meu trabalho e com meus clientes. Acredito no potencial dela. Mas acredito também que tecnologia não decide sozinha para onde vai o valor que ela gera. Quem decide são as pessoas: quem constrói, quem contrata, quem regula.
Na Revolução Industrial, a humanidade levou 80 anos para corrigir esse erro. Agora a gente conhece a história. Não precisa esperar tanto de novo.
Baseado no artigo "IA corre o risco de repetir o erro mais duradouro da Revolução Industrial", da Caixin Global, republicado pelo Poder360 em 26/09/2026.
Lucas Barbieri 