De onde vem o nome Wi-Fi? Spoiler: ele não quer dizer nada

Você já ouviu que Wi-Fi é "wireless fidelity". Não é. O nome saiu de uma agência de marcas em 1999, e a explicação foi inventada depois.

Você chega na casa de alguém e, antes do “oi, tudo bem?”, já pergunta: “qual é a senha do Wi-Fi?”. A palavra virou tão comum que ninguém pensa nela. E, se alguém perguntar o que ela significa, a resposta que corre por aí é “wireless fidelity”, algo como “fidelidade sem fio”.

Pois é. Essa resposta está errada. O nome Wi-Fi não é sigla de nada. E a história de como ele nasceu tem uma regra do governo americano, um laboratório na Holanda e uma agência de marcas.

Primeiro veio a faixa de rádio

Toda rede sem fio conversa por ondas de rádio, as mesmas ondas invisíveis que levam o som de uma estação FM até o seu carro. Só que o rádio é dividido em faixas, como as pistas de uma estrada, e quase todas precisam de licença do governo para serem usadas.

Em 9 de maio de 1985, a FCC, a agência que cuida das telecomunicações nos Estados Unidos, aprovou regras que pareciam chatíssimas na época. O engenheiro Michael Marcus, que trabalhava lá, lembra que a reunião quase não chamou atenção. A decisão permitiu que aparelhos usassem, sem licença, algumas faixas reservadas para uso industrial, científico e médico, as chamadas faixas ISM. Uma delas era a de 2,4 GHz.

O detalhe curioso: é bem pertinho dessa faixa que trabalha o forno de micro-ondas, que usa energia em 2,45 GHz para esquentar a comida. Ou seja: a rede sem fio que você usa hoje divide a vizinhança com a cozinha. E, como a faixa era livre, qualquer empresa podia tentar inventar alguma coisa ali.

Um laboratório na Holanda

Quem aproveitou foi a NCR, empresa americana famosa pelas caixas registradoras. Ela queria trocar os cabos que ligavam os caixas das lojas por rádio. A equipe que cuidou disso ficava num laboratório em Utrecht, na Holanda.

Em novembro de 1987, em Nieuwegein, cidade vizinha, esses engenheiros mostraram dois computadores trocando dados por rádio. Segundo o IEEE, a associação internacional de engenheiros que hoje tem uma placa sobre isso na prefeitura de Nieuwegein, o primeiro teste chegou a 100 kbit/s, ou seja, cem mil “zeros e uns” por segundo. O produto comercial, chamado WaveLAN, chegou a 2 Mbit/s, cerca de dez vezes mais rápido que os concorrentes da época.

O IEEE considera esse trabalho o ponto de partida do grupo que criou o padrão das redes sem fio. Esse grupo começou a se reunir em 1990 e foi presidido até 2000 pelo holandês Vic Hayes, conhecido como “pai do Wi-Fi”. Um padrão, aqui, é um conjunto de regras que todo fabricante segue para que aparelhos de marcas diferentes consigam conversar.

Um nome que ninguém conseguia falar

O primeiro padrão foi aprovado em 1997 e ganhou um nome bem de engenheiro: IEEE 802.11. Em 1999 veio a versão que fez a tecnologia decolar, a 802.11b, com até 11 Mbit/s. Naquele mesmo ano, a Apple lançou uma linha de produtos sem fio baseada nessa tecnologia, como registra a página do IEEE.

Agora imagine um vendedor de loja tentando explicar: “este notebook tem IEEE 802.11b Direct Sequence”. Não dá.

Por isso, em 1999, um grupo de empresas que fabricava esses aparelhos criou uma associação, a Wireless Ethernet Compatibility Alliance, ou WECA. O papel dela era testar os produtos e garantir que um aparelho de uma marca funcionasse com o de outra. Para isso, precisavam de um selo com um nome que qualquer pessoa conseguisse falar. A WECA virou a Wi-Fi Alliance em 2002.

Uma lista de dez nomes

A WECA contratou a Interbrand, uma agência especializada em criar marcas. Phil Belanger, um dos fundadores do grupo, contou a história em 2005, numa mensagem publicada pelo site Boing Boing. A agência apresentou uma lista de dez nomes, e o grupo escolheu Wi-Fi. A mesma Interbrand também criou o logotipo da época.

E o significado? Segundo Belanger, nenhum. Nas palavras dele: “Wi-Fi doesn’t stand for anything”, algo como “Wi-Fi não quer dizer nada”. A explicação mais aceita, segundo a Mental Floss, é que o nome brinca com “hi-fi”, o termo que se usava para os aparelhos de som de alta qualidade, trocando o “hi” pelo “wi” de “wireless”, que quer dizer “sem fio” em inglês. Mas isso é sonoridade, não sigla.

De onde saiu o “wireless fidelity”

Aqui está a parte boa. Alguns membros do grupo não conseguiam imaginar um nome sem uma explicação por trás. Então, depois que o nome já estava escolhido, a diretoria inventou um slogan: “The Standard for Wireless Fidelity”, ou “o padrão para a fidelidade sem fio”.

Belanger conta que o slogan ficou em uso por mais ou menos um ano e depois foi abandonado. Ele mesmo chamou a ideia de erro, porque só serviu para confundir. Tarde demais: a frase pegou e atravessou mais de vinte anos de conversa de bar.

Até o dicionário Oxford entrou na história. Segundo a Mental Floss, o dicionário classifica como falsa a ideia de que Wi-Fi seria abreviação de “wireless fidelity”. Esse tipo de coisa tem até nome: quando alguém inventa o significado de uma palavra depois que ela já existe, chama-se “retroacrônimo”.

O que isso tem a ver com você

Hoje o Wi-Fi está no celular, na TV, na geladeira de gente chique e na lâmpada que acende pelo aplicativo. Por trás dele continua a mesma ideia de 1985: uma faixa de rádio liberada para todo mundo usar, sem pedir licença. E continua a mesma lógica do selo de 1999: se o aparelho tem o selo, ele conversa com o seu roteador, seja de que marca for.

O nome, que parece técnico, é puro marketing. E isso vale para muita coisa no mundo da tecnologia: nem toda sigla bonita quer dizer alguma coisa. Na próxima vez que alguém pedir a senha do Wi-Fi, você já tem assunto para o resto do almoço.

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