LO: a primeira mensagem da internet travou no meio
Em 29 de outubro de 1969, um estudante tentou digitar LOGIN de um computador para outro. Chegaram só o L e o O. Foi assim que a internet disse seu primeiro oi.

Sabe quando você digita a senha, aperta Enter e o aplicativo trava no meio? Pois é. A internet começou exatamente assim.
Em 29 de outubro de 1969, às 22h30, num laboratório da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), um estudante tentou mandar a palavra LOGIN para um computador a centenas de quilômetros dali. Chegaram o L e o O. Aí, tudo parou. Faz 57 anos hoje, e essa é a história de como a rede que você usa para ver este texto disse seu primeiro “oi”, meio gaguejando.
Por que ligar dois computadores era uma ideia maluca
Nos anos 1960, computador era uma máquina enorme, caríssima, que ocupava uma sala e pertencia a uma universidade ou a um centro de pesquisa. Cada um falava a sua própria língua. Se um pesquisador precisasse de um programa que só existia em outra cidade, o jeito era viajar.
Em agosto de 1962, o pesquisador J.C.R. Licklider, do MIT, escreveu uma série de memorandos descrevendo uma “Rede Galáctica”: computadores do mundo todo conectados, com qualquer pessoa acessando dados e programas de qualquer lugar. Em outubro daquele ano, ele virou o primeiro chefe da área de computação da ARPA, a agência de pesquisa do Departamento de Defesa dos EUA, conta o histórico da Internet Society, escrito pelos próprios pioneiros da rede.
Cortar a mensagem em pedacinhos
Faltava resolver o “como”. O telefone funcionava com circuito: quando você ligava, uma linha ficava reservada só para aquela conversa, do começo ao fim. Para computadores, que falam aos trancos (um monte de dados, depois silêncio, depois mais dados), isso era um desperdício.
A saída foi a comutação de pacotes, um nome complicado para uma ideia simples: cortar a mensagem em pedaços numerados, os pacotes, mandar cada um pelo caminho que estiver livre e remontar tudo no destino. Leonard Kleinrock publicou o primeiro artigo sobre essa teoria em 1961, quando estava no MIT. Paul Baran, da RAND, nos EUA, e Donald Davies e Roger Scantlebury, do National Physical Laboratory, na Inglaterra, chegaram a ideias parecidas quase ao mesmo tempo, sem saber uns dos outros, segundo a Internet Society. Por isso, quando alguém pergunta “quem inventou o pacote”, a resposta honesta é: mais de uma pessoa.
A “geladeira” que fazia a conversa
Para não obrigar cada computador a aprender a falar com todos os outros, a ARPA decidiu colocar ao lado de cada um uma máquina intermediária, o IMP (Interface Message Processor, algo como “processador de mensagens”). Pense no IMP como um carteiro: o computador entrega a mensagem para ele, e os IMPs se viram para levá-la até o outro lado.
O contrato para construir os IMPs foi ganho em dezembro de 1968 por uma equipe liderada por Frank Heart na BBN (Bolt Beranek and Newman), uma empresa americana. Em setembro de 1969, o primeiro IMP foi instalado na UCLA, no laboratório de Kleinrock, e cerca de um mês depois o segundo chegou ao Stanford Research Institute (SRI), em Menlo Park, de acordo com a Internet Society. A UCLA descreve a máquina como do tamanho de uma geladeira, e o laboratório, a sala 3420 do prédio Boelter Hall, virou hoje um pequeno museu.
A noite do “LO”
Na noite de 29 de outubro, o estudante e programador Charley Kline sentou diante do computador da UCLA, um SDS Sigma 7, sob a supervisão de Kleinrock. Do outro lado, no SRI, o programador Bill Duvall esperava num SDS 940. Os dois conversavam por telefone, com fones de ouvido, para conferir se tudo chegava, conta o blog da ICANN, a organização que hoje coordena os endereços da internet.
O plano era fazer login no computador do SRI. Kline digitou o L. “Chegou o L”, respondeu Duvall. Digitou o O. “Chegou o O.” Digitou o G, e o sistema caiu. A primeira mensagem da história da rede foi, sem querer, “LO”, como registra a página de Kleinrock na UCLA. Cerca de uma hora depois, com tudo reiniciado, o login completo funcionou.
Não existe foto nem gravação daquele momento. O que sobrou foi uma linha escrita à mão no caderno de registros do IMP da UCLA: “22:30 – Talked to SRI host to host”, ou seja, “conversei com o SRI, de computador para computador”, com as iniciais CSK, de Charles S. Kline. Não podia ser mais discreto para um momento desses.
O mito da bomba atômica
Você talvez já tenha ouvido que a internet foi criada para sobreviver a uma guerra nuclear. É uma das histórias mais repetidas sobre ela, e os próprios pioneiros dizem que não é verdade. O texto da Internet Society, assinado por gente como Vint Cerf, Robert Kahn e o próprio Kleinrock, explica que a ARPANET nunca teve esse objetivo. A confusão veio de um estudo da RAND sobre comunicação de voz segura em caso de guerra, que de fato pensava nisso, mas era outro projeto. A ARPANET nasceu para algo bem menos cinematográfico: deixar pesquisadores dividirem computadores caros.
De quatro computadores ao seu bolso
No fim de 1969, a rede já tinha quatro computadores: UCLA, SRI, a Universidade da Califórnia em Santa Bárbara e a Universidade de Utah. Em março de 1972, Ray Tomlinson, da BBN, escreveu o primeiro programa de e-mail da rede. E em 1º de janeiro de 1983 veio uma virada de chave: todos os computadores da ARPANET tiveram de trocar, no mesmo dia, o “idioma” que usavam para conversar pelo TCP/IP, as regras que ainda hoje organizam a internet, segundo a Internet Society.
O que mudou e o que continua igual
Comecei a programar aos 11 anos, e uma coisa que todo programador aprende cedo é que a primeira tentativa quase nunca funciona. É reconfortante saber que a internet também começou assim: com um travamento, um “deixa eu reiniciar” e uma segunda tentativa uma hora depois.
O que mudou foi a escala. Daquela linha entre dois computadores, a rede virou um emaranhado que cobre o planeta inteiro. O que continua igual é a ideia central: quando você manda uma foto no grupo da família, ela não viaja inteira. Ela é cortada em pacotes, cada um vai por onde der, e tudo se monta de novo do outro lado, como naquela noite de 1969. Só que agora, quase sempre, sem travar no G.


