Quem inventou o Ctrl+C e o Ctrl+V? A história do copiar e colar

Antes do computador, recortar e colar era com tesoura e cola. Conheça Larry Tesler, o editor feito para uma editora e o motivo das letras X, C e V.

Você copia a chave Pix que alguém mandou no WhatsApp, abre o aplicativo do banco e cola. Copia o endereço de um site e cola no navegador. Seleciona um parágrafo, aperta Ctrl+C e Ctrl+V. É tão automático que parece que sempre existiu.

Não existia. Copiar e colar foi inventado, tem nome e sobrenome, e começou num lugar inesperado: uma editora de livros escolares. E tem mais: hoje, 28 de outubro, faz exatos 29 anos que um dos inventores subiu ao palco e contou por que os atalhos são essas letras e não outras.

Antes do computador, era tesoura e cola

Muito antes de existir o botão “Colar”, editores de livros e revistas já recortavam e colavam. No sentido literal: pegavam o texto impresso, cortavam os parágrafos com tesoura e colavam numa nova folha, na ordem certa. Essa prática foi comum nas editoras por décadas, segundo o verbete sobre recortar, copiar e colar da Wikipédia em inglês.

O problema dos “modos”

No começo dos anos 1970, mexer num texto no computador era coisa de especialista. Os programas de edição funcionavam por “modos”: você entrava no modo de comando para dar ordens e no modo de edição para escrever. Se esquecesse em qual modo estava, o desastre era garantido.

Hansen Hsu, curador do Computer History Museum, o museu de história da computação da Califórnia, deu um exemplo à rádio americana NPR: num desses editores, digitar a palavra “EDIT” no modo errado selecionava todo o texto, apagava tudo e deixava só um “T” no lugar.

Quem se incomodava muito com isso era Larry Tesler, um programador nascido em Nova York em 1945, formado em matemática em Stanford. No começo de 1973, ele entrou no Xerox PARC, o centro de pesquisa da Xerox em Palo Alto, na Califórnia, conta a revista IEEE Spectrum. E chegou lá com uma ideia fixa: acabar com os modos.

A revista conta um teste que Tesler fez com Sylvia Adams, uma secretária recém-contratada do laboratório, antes que ela se acostumasse com os editores de texto de lá. Ele perguntou como ela faria as marcas de revisão de um texto direto na tela. O jeito que ela descreveu não tinha modo nenhum. Já quando ela tentou usar o editor cheio de modos que o laboratório usava, teve dificuldade até para sair dele.

Gypsy, um editor feito para uma editora

A Xerox era dona de uma editora de livros escolares, a Ginn and Company, e queria levar o computador para o trabalho de quem preparava livros. Tesler se juntou a Tim Mott, que trabalhava na Ginn, para criar um editor de texto para essa gente, que não era da área de tecnologia. Mott contou à NPR que o usuário que eles tinham em mente era uma senhora de 60 e poucos anos que tinha passado a vida inteira trabalhando com publicações.

O resultado se chamou Gypsy. Um memorando dos dois, de abril de 1975, registra que o sistema foi entregue à Ginn em março daquele ano. Ele rodava no Alto, um computador experimental da Xerox que já usava mouse.

No Gypsy, você marcava o trecho com o mouse e escolhia CUT (recortar) ou PASTE (colar). O texto recortado ia para uma “cesta de lixo” temporária, de onde podia ser colado em outro lugar. Era o avô da área de transferência, aquele lugar invisível onde fica o que você copiou. O nome das ações veio direto das editoras: segundo Mott, Tesler emprestou o termo da velha prática da tesoura e da cola, conta a NPR.

O Computer History Museum guarda um vídeo de Tesler mostrando o Gypsy num Alto restaurado, recortando e colando como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Da Xerox para a Apple

A ideia se espalhou pelo laboratório e chegou ao Smalltalk, uma linguagem de programação criada no próprio PARC, segundo o verbete sobre o Gypsy. Em 1980, Tesler trocou a Xerox pela Apple, onde foi trabalhar no Lisa, conta a IEEE Spectrum. Segundo o próprio Tesler, a ideia do Lisa era ser um computador muito fácil de usar, para gente de escritório que nunca tinha mexido numa máquina dessas.

No dia 28 de outubro de 1997, Tesler e Chris Espinosa, outro veterano da Apple, contaram essa história numa palestra no Computer History Museum. A transcrição da conversa traz detalhes saborosos. Em agosto de 1980, o menu de edição do Lisa tinha “Cut”, “Paste” e um tal de “Dupe”, de duplicar, no lugar do copiar. Um revisor do projeto preferia comandos como “Mover”, “Copiar” e “Apagar”, mas, nos testes com usuários, as pessoas preferiram, por pouco, recortar e colar.

O Lisa chegou às lojas em 1983 e o Macintosh, em 1984. Foram eles que popularizaram o recortar, copiar e colar, segundo o verbete da Wikipédia.

Por que X, C, V e Z?

Agora, a parte que você veio ler. Na mesma palestra de 1997, Tesler explicou que a Apple reservou esses atalhos para que fossem iguais em todos os programas. E cada letra tem um motivo, segundo a transcrição:

  • X para recortar, porque parece um risco, aquele “X” que a gente faz para riscar alguma coisa.
  • V para colar, porque lembra uma setinha apontando para baixo, como quem diz “é aqui que entra”.
  • C para copiar, de “copy”, copiar em inglês, e de quebra vizinho das outras duas.
  • Z para desfazer, porque era a tecla mais próxima. Segundo Tesler, a equipe imaginou que a gente iria desfazer muita coisa.

Repare no seu teclado: Z, X, C e V ficam lado a lado, no canto esquerdo da fileira de baixo.

No Mac, os atalhos usam a tecla Command, aquela do símbolo de trevo. Como o teclado do PC não tinha essa tecla, o mundo Windows usou o Ctrl. E nem foi de primeira: um artigo de suporte da Microsoft lembra que o Windows 3.0 recortava com Shift+Delete, copiava com Ctrl+Insert e colava com Shift+Insert. As combinações Ctrl+X, Ctrl+C e Ctrl+V só vieram a partir do Windows 3.1.

“Ninguém me prenda num modo”

Tesler levou a briga contra os modos a sério pelo resto da vida. Ele tinha uma placa de carro personalizada com a palavra “NOMODES” (sem modos) e repetia o lema “Don’t Mode Me In”, um trocadilho que dá para traduzir como “não me prenda num modo”, segundo a Wikipédia. Depois da Apple, passou pela Amazon e pelo Yahoo, e morreu em fevereiro de 2020, aos 74 anos, como noticiou a Computerworld.

Eu programo desde os 11 anos e perdi a conta de quantas vezes aperto Ctrl+C e Ctrl+V num único dia. No celular, é a mesma ideia com outra roupa: segura o dedo, aparece “Copiar”, segura de novo, aparece “Colar”. Nada de tesoura, nada de modo.

E é isso que vale guardar dessa história. O copiar e colar não nasceu de um gênio querendo impressionar outros programadores. Nasceu de alguém olhando para uma secretária recém-chegada e para uma editora que trabalhava com tesoura e cola, e perguntando: como deixar isso simples para essa pessoa? Cinquenta anos depois, a pergunta continua valendo para qualquer tecnologia nova que chega na sua mão.

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