O bug do milênio: quando o mundo teve medo do ano 2000
Para economizar espaço, os computadores guardavam o ano com dois dígitos. Na virada para 2000, "00" podia virar 1900. O mundo gastou bilhões para evitar o caos.

Lembra do réveillon de 1999 para 2000? Além da roupa branca e da contagem regressiva, tinha uma dúvida no ar: e se, à meia-noite, os computadores enlouquecessem? Bancos travados, luz apagando, avião caindo. O medo tinha nome: bug do milênio. Em inglês, Y2K, de “year 2000”, ou “ano 2000” (o K é de “quilo”, mil).
A meia-noite chegou, e o mundo continuou de pé. Por isso muita gente lembra do bug do milênio como um grande boato. Só que a história é bem mais interessante: o problema era real, e a festa só foi tranquila porque muita gente passou anos trabalhando para consertá-lo.
Uma economia de dois dígitos
“Bug” é o nome que se dá a um erro num programa de computador. E esse bug nasceu de uma decisão que, na época, fazia todo sentido.
Nos primeiros computadores, cada espaço para guardar informação custava caro. A memória era minúscula e cara, e muitos dados eram registrados em cartões perfurados, fichas de papel com 80 colunas, em que cada coluna guardava um caractere. Por isso, os programadores escreviam o ano só com os dois últimos dígitos: “98” queria dizer 1998, como explica o Smithsonian, a rede de museus dos Estados Unidos.
Segundo um verbete da EBSCO, editora de obras de referência, as datas no COBOL, uma linguagem de programação muito usada em bancos e governos, seguiam o formato de seis dígitos (mês, dia e ano). Quando a IBM lançou a família de computadores System/360, em 1964, o ano com dois dígitos virou padrão no mercado.
Ninguém imaginava que aqueles programas ainda estariam rodando décadas depois. Mas estavam.
O problema do “00”
A conta é simples. Se o computador guarda o ano como “99”, ele entende 1999. Quando o calendário vira, o ano passa a ser “00”. E aí? O computador entende 2000 ou 1900?
Para a maioria dos sistemas, a resposta seria 1900. E isso bagunçaria qualquer conta que dependesse de data: os juros de uma aplicação, a idade de uma pessoa, a validade de um cartão, o vencimento de um boleto. Como explica o cientista da computação Nir Oren, da Universidade de Aberdeen, o risco não era só um número errado na tela: um erro podia puxar outro, em redes de energia, telefonia e sistemas financeiros.
E o problema não ficava só nos computadores grandes. Equipamentos médicos, elevadores e sistemas de controle de temperatura também tinham chips que lidavam com datas, lembra o Smithsonian.
O aviso que demorou a pegar
O curioso é que o alerta veio cedo. Robert Bemer, um dos criadores do COBOL, defendia o uso de quatro dígitos para o ano e publicou avisos em 1971 e em 1979, segundo a EBSCO. Quase ninguém deu atenção.
A coisa só esquentou nos anos 1990. Em 6 de setembro de 1993, o engenheiro canadense Peter de Jager publicou na revista Computerworld um artigo chamando a virada do século de “Doomsday 2000”, algo como “o Juízo Final de 2000”, segundo a SmarterMSP. Ele estimou que o conserto custaria dezenas de bilhões de dólares. Errou para menos.
Em 1999, o bug já aparecia na vida real. O apresentador de TV Stewart Cheifet, do programa Computer Chronicles, recebeu de uma grande rede de postos de gasolina um cartão de crédito com validade no ano 1000, conta o Smithsonian.
Um mutirão de bilhões de dólares
Bancos, empresas e governos montaram equipes só para isso. O trabalho era olhar programa por programa, achar onde havia datas e trocar o formato para quatro dígitos. Quando isso não dava, usava-se um truque: tratar os anos de “00” a “50” como 2000 e os de “51” a “99” como 1900, explica Nir Oren. Nos aparelhos em que o erro estava no próprio chip, o jeito era trocar o equipamento.
A consultoria Gartner estimou o custo total entre 300 e 600 bilhões de dólares, segundo o Smithsonian. Só nos Estados Unidos, foram cerca de 100 bilhões, de acordo com dados do Departamento de Comércio americano citados pela EBSCO. Em outubro de 1998, os EUA aprovaram até uma lei para incentivar as empresas a trocar informações sobre o assunto, e em dezembro do mesmo ano a ONU fez uma conferência internacional sobre o bug.
No Brasil, o clima era o mesmo. Um boletim interno do IBGE de 1998, o Conexão IBGE, já descrevia o “Bug do Milênio” e contava que a área de informática do instituto estava fazendo o inventário de todos os equipamentos e programas para medir o tamanho do problema.
E à meia-noite?
Não aconteceu nenhuma grande catástrofe. Segundo a EBSCO, mais de 95% dos problemas foram corrigidos a tempo. O que sobrou virou anedota, e a Mental Floss juntou algumas:
- Numa locadora do estado de Nova York, um cliente recebeu uma multa de mais de 91 mil dólares: o computador achou que o filme estava 100 anos atrasado.
- Um hospital da Dinamarca registrou o primeiro bebê do milênio no país como se ele tivesse 100 anos.
- O site do Observatório Naval dos EUA mostrou a data como “1 de janeiro de 19100” por menos de uma hora.
- Satélites espiões americanos mandaram dados ilegíveis por quase três dias. A culpa, ironicamente, foi de uma correção feita para evitar o bug.
Até o dia extra de 29 de fevereiro de 2000 deu trabalho: houve pelo menos 250 falhas pequenas em 75 países, segundo a EBSCO.
Exagero ou trabalho bem feito?
Até hoje tem gente que acha que foi tudo exagero. Muitos especialistas, como Nir Oren, dizem o contrário: não deu nada porque muita gente trabalhou para que não desse. É o paradoxo de quem previne problemas: quando o trabalho é bem feito, parece que nunca houve perigo.
E a história não acabou. Muitos computadores contam o tempo em segundos desde 1º de janeiro de 1970, e, nos sistemas que guardam essa conta num espaço pequeno, o contador estoura em 2038, lembra Nir Oren. O truque do “00 a 50” também tem prazo de validade: 2050. Ou seja, o bug do milênio tem primos, e alguém vai ter que lembrar deles antes da hora. Desta vez, de preferência, sem esperar até 1999.


