Como a urna eletrônica funciona por dentro?

De onde veio a urna, o que ela é por dentro, quem fiscaliza o programa e como você mesmo confere o resultado da sua seção pelo celular.

Domingo, 25 de outubro, foi dia de segundo turno. Milhões de brasileiros digitaram alguns números, apertaram o Confirma e ouviram aquele barulhinho que todo mundo conhece. Mas pouca gente para pra pensar no que acontece com o voto depois disso.

Eu trabalho com tecnologia há mais de 25 anos, e aqui quero abrir essa caixa com você. Nada de política, candidato ou partido. Só tecnologia: de onde a urna veio, o que ela é por dentro, como ela é verificada e como você mesmo confere o resultado da sua seção.

Se preferir assistir, o vídeo completo está no canal do Escovando Bytes no YouTube.

Uma ideia de 1932 que esperou 60 anos

Votar com uma máquina é uma ideia bem mais antiga do que parece. O Código Eleitoral de 1932, o mesmo que criou a Justiça Eleitoral, o voto secreto e o voto feminino, já previa o uso de “máquinas de votar”, como conta o TRE do Paraná. A tecnologia para isso só chegou seis décadas depois.

Até os anos 1990, o voto era numa cédula de papel, contada à mão. A apuração manual era lenta e abria espaço para fraude. Em 1995, o TSE montou uma comissão técnica liderada por pesquisadores do INPE, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, e do CTA, o centro técnico da Aeronáutica, para criar uma máquina de votar brasileira, segundo o próprio TSE. Ou seja: gente da área espacial desenhando a urna.

Ela estreou em 1996, em 57 cidades, incluindo todas as capitais. Cerca de 32 milhões de eleitores votaram eletronicamente pela primeira vez. O teclado imitava o de um telefone de propósito, para que pessoas analfabetas e com deficiência visual conseguissem votar sem dificuldade.

E aquela primeira urna, a UE96, tinha processador 386 e usava disquete. Disquete! Tem gente que diz que ela tinha cara de micro-ondas, como lembra uma reportagem da CNN Brasil. Em 1998 a votação eletrônica já cobria mais da metade do eleitorado e, em 2000, chegou a 100%. Ou seja: em 2026, a urna completa 30 anos.

O que a urna é, de verdade

A urna é um computador, só que dedicado: ela foi feita para uma única tarefa, registrar e guardar votos. Não roda navegador, não abre WhatsApp e não instala aplicativo.

Ela tem duas partes. No terminal do mesário, ele identifica o eleitor, inclusive pela digital, e libera o voto. No terminal do eleitor, você digita os números.

O ponto mais importante é que a urna não se conecta à internet. Não tem Wi-Fi, Bluetooth nem cabo de rede, e funciona isolada durante toda a votação. Quem é da área chamaria isso de “sistema embarcado offline”: algo bem mais parecido com o computador de uma máquina industrial do que com um notebook.

Cada urna dura cerca de dez anos, e desde 1996 já foram fabricados 14 modelos diferentes, segundo o TRE-PR.

Antes da eleição: quem pode olhar o programa

A pergunta que todo mundo faz é se dá para confiar no programa que roda lá dentro. A resposta da Justiça Eleitoral é deixar esse programa ser fiscalizado.

Um ano antes da eleição, o código-fonte da urna (o conjunto de instruções que diz o que o programa faz) fica aberto para inspeção de entidades como OAB, Polícia Federal, Ministério Público, partidos políticos e universidades.

Depois vem o Teste Público de Segurança. Ele existe desde 2009 e é obrigatório desde 2016: qualquer brasileiro maior de 18 anos pode se inscrever, apresentar um plano de ataque e tentar quebrar a segurança do sistema. As urnas usadas em 2026 passaram por esse teste em dezembro de 2025.

Vale ser honesto: em algumas edições, os participantes encontraram falhas. Peritos da Polícia Federal e pesquisadores como o professor Diego Aranha já demonstraram vulnerabilidades, como registra o Olhar Digital. Mas o teste existe justamente para isso: achar o problema, corrigir e testar de novo antes da eleição. Segundo o TSE, nenhuma falha encontrada nesses testes comprometeu o sigilo do voto ou o resultado.

Com tudo pronto, os programas recebem uma assinatura digital numa cerimônia pública de lacração. Aí entra o hash, uma espécie de impressão digital do programa. Se alguém mudar um único caractere do código, essa impressão digital muda por completo. Assim dá para conferir se o programa na urna é exatamente o mesmo que foi lacrado.

No dia da eleição: a urna prova que está vazia

Antes do primeiro eleitor votar, a urna imprime um papel chamado zerésima, que mostra que não há nenhum voto registrado nela. Mesários e fiscais dos partidos assinam esse papel.

No mesmo dia acontece o Teste de Integridade: algumas urnas são sorteadas e, em vez de ir para a seção, ficam num local público. Lá, são digitados votos que foram preenchidos antes em cédulas de papel, com tudo filmado. No fim, o resultado da urna é comparado com as cédulas, explica o Diário do Comércio. Se a urna desviasse votos, a diferença apareceria ali.

Depois: como conferir o resultado da sua seção

Quando a votação termina, às 17h, a urna imprime o Boletim de Urna, o BU. Ele mostra quantos votos cada candidato teve naquela seção, além de brancos, nulos e quantas pessoas votaram. O boletim fica afixado na própria seção, os fiscais levam uma cópia e ele traz um QR Code com assinatura digital.

É aqui que entra o seu celular:

  1. Instale o Boletim na Mão, aplicativo oficial da Justiça Eleitoral.
  2. Aponte a câmera para o QR Code de um boletim impresso.
  3. O app lê os dados e confere a assinatura digital.
  4. Compare com o mesmo boletim publicado no site do TSE.

O resultado da eleição é, no fim das contas, a soma de todos esses boletins públicos. E cada um deles pode ser conferido por qualquer pessoa, como mostra a apresentação técnica do TSE sobre as camadas de segurança da urna.

Por que vale saber disso

Trinta anos depois do disquete, a lógica continua a mesma: um computador que não fala com a internet, com o programa aberto à fiscalização, testado por gente de fora, lacrado e assinado, e com o resultado de cada seção impresso e publicado. Você não precisa acreditar em mim: os links estão todos no texto, a maioria do próprio TSE.

Ficou alguma dúvida sobre como a urna funciona? Deixa nos comentários do vídeo. Ela pode virar o próximo conteúdo.

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