Por que o ícone de salvar ainda é um disquete?

Muita gente que clica nele todo dia nunca viu um disquete de verdade. A história do objeto que sumiu das lojas e continua vivo num botão.

Abra qualquer editor de texto ou planilha e procure o botão de salvar. Grandes chances de ele ser um quadradinho com uma portinha em cima e uma etiqueta embaixo. É um disquete. Muita gente clica nele várias vezes por dia sem nunca ter segurado um.

Como um objeto que praticamente sumiu das lojas continua vivo num botão? A resposta passa por uma sala da IBM nos anos 1960, por uma corrida para encolher discos e por uma pesquisa feita em 2025.

Um disco flexível

Em 1967, na IBM de San Jose, na Califórnia, o gerente Alan Shugart deu uma tarefa ao engenheiro David L. Noble: achar um jeito barato de carregar o microcódigo, as instruções básicas que dizem a uma máquina como funcionar, num equipamento de armazenamento de computadores de grande porte. Em 1971, a IBM entregou as primeiras unidades da solução, apelidada de “Minnow” (algo como “peixinho”), conta o Computer History Museum.

Era um disco magnético de 8 polegadas, uns 20 centímetros, que só podia ser lido, não gravado. Cabiam 80 KB, o equivalente a cerca de 3.000 cartões perfurados, segundo o museu. O disco era flexível, por isso o nome em inglês: floppy, “mole”. Para não estragar, ganhou uma capa protetora, projetada por Ralph Flores e Herbert Thompson.

A IBM não fez isso sozinha numa tacada. O museu lembra que Warren Dalziel foi o principal inventor do leitor, e a IEEE Computer Society credita Noble por liderar o desenvolvimento dos primeiros leitores de disquete da empresa.

A corrida para encolher

Em 1972, Shugart, já fora da IBM, ajudou a lançar na Memorex um disquete de 8 polegadas com 175 KB, feito para guardar dados em geral. Em 1976, a empresa que ele fundou, a Shugart Associates, apresentou o “mini-floppy”, de 5¼ polegadas, de acordo com o Computer History Museum.

Três leitores de disquete lado a lado sobre fundo branco, do maior para o menor: um leitor grande e aberto, mostrando a mecânica, um médio com uma placa de circuito em cima e um pequeno, fino e cinza.
Leitores de disquete de 8, 5¼ e 3½ polegadas, lado a lado. Marcas desfocadas pelo Escovando Bytes. Foto: Michael Holley / Wikimedia Commons (domínio público)

O próximo passo veio do Japão. No início dos anos 1980, a Sony apresentou o disquete de 3½ polegadas, com uma capa de plástico mais firme e uma portinha de metal para proteger o disco, segundo o Museum of Obsolete Media (há registros que falam em 1981 e outros em 1982). Em 1987 chegou a versão de alta densidade, com 1,44 MB, que logo virou padrão nos PCs e nos Macs.

Esse é o disquete que a maioria das pessoas lembra. E é exatamente ele que está desenhado no botão.

Linha do tempo de 1971 a 2025: o disco de 8 polegadas da IBM, o de 5¼, o de 3½ da Sony, a versão de 1,44 MB, o iMac sem leitor, o fim das vendas da Sony no Japão, o Japão derrubando regras com disquete e a pesquisa sobre o ícone.
Do disco flexível da IBM à pesquisa sobre o ícone. Ilustração: Escovando Bytes

Quando salvar era gravar no disquete

Por anos, o disquete foi o lugar onde o trabalho ficava guardado e o jeito de levar arquivos de um computador para outro. Salvar um texto, muitas vezes, era literalmente gravar no disquete que estava enfiado na máquina. Quando os programas ganharam barras de botões com desenhos, fazia todo sentido que o botão de salvar mostrasse o objeto onde a coisa ia parar.

Repare que o ícone não desenha o disquete de 8 nem o de 5¼, que eram moles. Desenha o de 3½, com capa dura, como observou a Computerworld numa reportagem de 2012 sobre ícones que envelheceram. O desenho guardou só o essencial: a portinha em cima, a etiqueta embaixo e o canto cortado.

Comparação: à esquerda, um disquete de 3½ desenhado com portinha de metal e etiqueta; uma seta leva ao ícone de salvar, um contorno simplificado que mantém a portinha, a etiqueta e o canto cortado.
O ícone é o disquete de 3½ reduzido ao mínimo. Ilustração: Escovando Bytes

O objeto sumiu, o símbolo ficou

O fim chegou devagar. Em agosto de 1998, a Apple lançou o primeiro iMac já sem leitor de disquete, apostando em CD e em entradas USB, lembra o Westport Tech Museum. Em 2010, a Sony, que tinha criado o formato de 3½, anunciou que deixaria de vender disquetes no Japão em 2011, noticiou a NPR.

E teve quem resistisse bem mais. Em 2024, o governo japonês anunciou que tinha eliminado 1.034 regras que ainda envolviam o uso de disquetes. O ministro digital, Taro Kono, comemorou dizendo que o país tinha vencido a “guerra contra os disquetes”, contou o Silicon UK.

Enquanto isso, o desenho continuou firme nos botões.

Mas as pessoas ainda entendem?

Essa pergunta foi testada. A pesquisadora Kate Kaplan, da Nielsen Norman Group, uma consultoria americana que estuda como as pessoas usam telas, mostrou o ícone a participantes nos Estados Unidos e pediu que dissessem o que ele faria. Segundo o artigo publicado em 2025, 83% responderam “salvar”, e outros 13% descreveram o objeto, como “disco” ou “cartão SD”.

A conclusão dela é curiosa: as pessoas reconhecem o ícone porque o viram muitas vezes na tela, não porque conheceram o disquete. O desenho virou uma espécie de palavra. Ninguém precisa saber de onde veio para entender o que quer dizer. A própria pesquisa faz um alerta: a maioria dos participantes tinha entre 30 e 50 anos, e quem está começando agora no mundo digital pode não ter a mesma familiaridade.

O disquete escondido no seu computador

Tem outro fóssil do disquete que muita gente vê sem perceber. Por que o disco principal do PC com Windows se chama C: e não A:? Porque as letras A: e B: ficaram reservadas para os leitores de disquete, explica a Computer Hope. O disco rígido ficou com a primeira letra que sobrou. E a reserva continua valendo, mesmo em computadores que nunca tiveram um leitor de disquete.

Três caixas lado a lado: A: e B: com desenhos de disquete, marcadas como primeiro e segundo leitor; C: em destaque, com o desenho de um disco rígido, marcada como a primeira letra livre.
A: e B: eram dos disquetes; o disco rígido ficou com o C:. Ilustração: Escovando Bytes

O que mudou e o que continua igual

Comecei a programar aos 11 anos, e uma coisa que a gente aprende cedo é que o computador está cheio de decisões antigas que ninguém mais lembra por que foram tomadas. O disquete é um exemplo perfeito: sumiu das mesas, mas deixou rastros no botão de salvar e na letra do seu disco.

O que mudou foi tudo em volta. Hoje o arquivo vai para a nuvem, muitos programas salvam sozinhos e o “lugar” onde as coisas ficam guardadas virou abstrato. O que continua igual é a vontade de ter um botão para dizer “guarda isso, por favor”. E, por enquanto, esse botão ainda tem a cara de um quadradinho de plástico com uma portinha de metal.

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