19 minutos para baixar uma música: como era a internet nos anos 90

O modem cantando, a linha de telefone ocupada e a espera pela meia-noite. Como era entrar na internet nos anos 90 e por que uma música levava quase 20 minutos.

Se você tem mais de 35 anos, provavelmente consegue ouvir agora mesmo, de memória: um tom de discagem, uns bipes, um chiado esganiçado e, se tudo desse certo, silêncio. Era o som de alguém entrando na internet.

Este texto acompanha o vídeo novo do canal, em que eu volto para a internet dos anos 90. Aqui vão a história, as contas e as fontes.

A internet chega às casas brasileiras

No Brasil, a rede existia desde o fim dos anos 1980 nas universidades e centros de pesquisa. Ela só chegou ao cidadão comum em 1995, quando o acesso discado passou a ser vendido para quem quisesse. Em maio daquele ano foi criado o Comitê Gestor da Internet no Brasil, o CGI.br, que até hoje coordena a rede no país, segundo a RNP, a rede que conectava as universidades brasileiras e que carregou parte do tráfego comercial até 1998.

E o jeito de entrar era pelo telefone de casa.

Internet era uma ligação telefônica

A conexão discada funcionava assim: você abria um programa chamado discador, que mandava o modem (o aparelho que transforma os dados do computador em sons e os sons de volta em dados) ligar para o número do provedor, a empresa que dava o acesso. Do outro lado, outro modem atendia. A partir daí, tudo o que você via na tela viajava como som pelo fio do telefone.

O efeito colateral todo mundo lembra: enquanto o computador estava conectado, a linha ficava ocupada, e ninguém em casa conseguia ligar nem receber ligação, explica o Hardware.com.br. E a conexão podia cair a qualquer momento.

Diagrama em quatro etapas: o computador abre o discador, o modem liga e faz barulho, a linha fixa fica ocupada e o provedor leva à internet.
Do computador ao provedor, passando pela linha de telefone de casa. Ilustração: Escovando Bytes

O barulho tinha um motivo

Aquele chiado não era defeito. As linhas de telefone foram feitas para transportar voz, então os modens precisavam conversar com sons dentro da faixa que o ouvido humano escuta. No começo da ligação, os dois aparelhos trocavam tons conhecidos para medir a qualidade da linha e combinar a velocidade mais alta que ela aguentava, explica o How-To Geek. É o chamado handshake, o “aperto de mão” entre as máquinas.

E por que dava para ouvir? O alto-falante ficava ligado de propósito, para você perceber na hora se tinha dado ocupado, se o número estava errado ou se quem atendeu foi uma secretária eletrônica. Depois que a conexão fechava, o modem se calava, e os dados seguiam num chiado que ninguém precisava ouvir.

Esperando dar meia-noite

Como era uma ligação, a internet entrava na conta de telefone. E a cobrança era por pulso, uma unidade que a companhia telefônica contava ao longo da ligação. Nos horários de pico, quanto mais tempo conectado, mais pulsos.

Mas havia uma brecha. Da meia-noite às 6h nos dias de semana, aos sábados a partir das 14h e aos domingos o dia todo, a conexão inteira custava um pulso só, não importava quanto tempo durasse, contam o TecMundo e o Hardware.com.br. Resultado: muita gente esperava dar meia-noite para entrar.

Gráfico com três faixas de 24 horas: de segunda a sexta, só a madrugada até as 6h aparece em destaque; no sábado, a madrugada e o período depois das 14h; no domingo, o dia inteiro.
Os horários em que a conexão inteira custava um pulso. Ilustração: Escovando Bytes

A conta dos 19 minutos

Agora a parte que dá título ao vídeo. Em 1994, o padrão V.34 permitiu modens de 28,8 kbps, ou 28,8 mil bits por segundo. Em 1998 veio o V.90, de 56 kbps, que é o máximo que uma linha discada comum consegue, segundo a Britannica.

Uma música de 4 MB tem cerca de 32 milhões de bits (cada byte tem 8 bits). Dividindo por 28,8 mil bits por segundo, dá pouco mais de 1.100 segundos: uns 19 minutos, e isso na conexão perfeita, sem queda e sem ninguém pegando o telefone. No modem de 56k, uns 10 minutos. Numa banda larga de 100 Mbps, a mesma música chega em menos de meio segundo.

Gráfico de barras: uma música de 4 MB leva cerca de 19 minutos num modem de 28,8 kbps, cerca de 10 minutos num de 56 kbps e menos de 1 segundo numa conexão de 100 Mbps.
A mesma música em três velocidades, no melhor caso possível. Ilustração: Escovando Bytes

Por dentro, o modem dependia de chips feitos para essa conversa em forma de som. Ampliado, um deles parece uma cidade vista do alto.

Foto ampliada de um chip de silício quadrado, em tons de dourado e verde, com blocos retangulares parecidos com quarteirões e uma moldura de contatos nas bordas.
O chip de um modem de 56K de 1999, ampliado. Marcas desfocadas pelo Escovando Bytes. Foto: Epop / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

O que dava para fazer lá dentro

Com tão pouca velocidade, a internet dos anos 90 era feita de texto e imagens pequenas. Um dos lugares mais famosos era o GeoCities, criado em 1994, onde qualquer pessoa podia montar a própria página de graça, organizada em “bairros” por assunto. O Yahoo comprou o serviço em 1999 e o fechou nos Estados Unidos em outubro de 2009. Antes disso, voluntários correram para salvar o máximo de páginas, conta o Archive Team, o grupo que fez esse resgate.

Para conversar, muita gente usava o ICQ, lançado em 1996 pela empresa israelense Mirabilis. Cada pessoa tinha um número, e era esse número que você passava para os amigos. O serviço resistiu por quase três décadas e saiu do ar em 26 de junho de 2024, segundo a Forbes Brasil.

O que mudou e o que continua igual

Comecei a programar aos 11 anos, e a melhor lição que a internet discada deixou foi a paciência: você pensava duas vezes antes de clicar num link, porque cada página custava tempo e, às vezes, pulso.

O que mudou é quase tudo: a velocidade, o preço, o fato de a internet estar no bolso e não presa ao telefone da sala. O que continua igual é a ideia de fundo: dados viajando por fios (e hoje também pelo ar) de uma máquina para outra. Se quiser ouvir o modem de novo e ver as outras lembranças daquela época, o vídeo está no canal.

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19 minutos pra baixar UMA música: como era a internet nos anos 90

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