Como uma mensagem atravessa o oceano? Por um cabo no fundo do mar
Não é satélite. Quase todo dado entre países passa por cabos da grossura de uma mangueira. A história começa em 1858, com 98 palavras que levaram 16 horas.

Você manda um áudio para um amigo em Lisboa e ele ouve quase na hora. Onde esse áudio passou? Muita gente aposta no satélite, porque é a imagem que ficou na cabeça: a mensagem sobe, faz uma curva no espaço e desce do outro lado.
Quase nunca é assim. Sua voz atravessa o oceano deitada no chão, dentro de um cabo.
A resposta está no fundo do mar
Segundo a secretária-geral da União Internacional de Telecomunicações, a agência da ONU para o setor, os cabos submarinos carregam mais de 99% da troca internacional de dados. Os satélites são úteis para lugares isolados, mas ficam com uma fatia mínima: nos Estados Unidos, só 0,37% da capacidade internacional, de acordo com a TeleGeography, empresa que mapeia esses cabos.
A mesma empresa estima que existam mais de 1,5 milhão de quilômetros de cabos em serviço, o suficiente para dar mais de 35 voltas na Terra. Parece coisa de ficção científica, mas a ideia tem quase 170 anos.
1858: 98 palavras em 16 horas e meia
Em meados do século 19, o telégrafo já corria por terra, mas parava na praia. Uma notícia entre a Europa e a América dependia de navio. Mesmo combinando telégrafo e vapor rápido, levava cerca de 12 dias.
O empresário americano Cyrus Field resolveu ligar os dois lados com um fio. Em 1858, depois de tentativas fracassadas, dois navios de guerra, o britânico Agamemnon e o americano Niagara, se encontraram no meio do Atlântico, emendaram o cabo e partiram em direções opostas, soltando fio pelo caminho até a Irlanda e a Terra Nova, hoje parte do Canadá.
As primeiras mensagens passaram em 17 de agosto. O sinal chegava tão fraco que o telegrama de 98 palavras da rainha Vitória ao presidente James Buchanan levou 16 horas e meia. Ainda assim, era uma façanha: 16 horas contra 12 dias.
A festa durou pouco. O cabo tinha defeitos de fabricação no cobre e no isolamento, e o eletricista-chefe da empreitada, Wildman Whitehouse, piorou tudo ao aumentar a tensão elétrica quando o sinal começou a sumir. Em 18 de setembro, depois de 271 mensagens, o cabo morreu.
O navio que cabia o cabo inteiro
A segunda chance veio com um gigante. O Great Eastern, um navio enorme para a época, foi transformado em navio de cabos porque nenhum outro no mundo conseguia levar sozinho todo aquele peso: cerca de 7 mil toneladas.
Em 1865, o cabo se rompeu no meio do caminho e afundou. Um ano depois, o navio voltou com outro. Em 27 de julho de 1866, a nova linha chegou a Heart’s Content, na Terra Nova. E a equipe ainda pescou no fundo do mar o cabo perdido no ano anterior e o completou. De repente, havia dois cabos funcionando.
A peça que fez o sinal fraco virar mensagem legível veio do físico britânico William Thomson, o futuro Lorde Kelvin. Ele criou o galvanômetro de espelho, um medidor tão sensível que captava correntes elétricas minúsculas.
O dia em que o Brasil entrou na linha
Thomson também pisou no Brasil. Em agosto de 1873, ele desembarcou em Belém para acompanhar o cabo que ligaria Pernambuco ao Pará, inaugurado em 5 de setembro daquele ano.
No ano seguinte veio o grande salto. Um cabo ligou a praia de Carcavelos, perto de Lisboa, ao Recife, com paradas na Ilha da Madeira e em Cabo Verde. Em 23 de junho de 1874, o Jornal do Recife festejava: entre a mensagem e a resposta tinham se passado só duas horas. Mas não era para qualquer um. Segundo a revista Pesquisa Fapesp, um telegrama de 20 palavras para a Inglaterra custava o equivalente a 94 dólares da época.
Da eletricidade à luz
Por mais de um século, os cabos foram de cobre. A virada veio em 14 de dezembro de 1988, com o TAT-8, o primeiro cabo de fibra óptica a cruzar um oceano. Fibra óptica é um fio de vidro que transporta luz em vez de corrente elétrica. O TAT-8 aguentava o equivalente a 40 mil linhas de telefone, dez vezes mais que o último cabo de cobre.
Ele saiu de serviço em 2002, e a remoção começou em 2025: um navio especializado puxou cerca de mil quilômetros do cabo do fundo do mar e os levou para o porto de Leixões, em Portugal.
Portugal, aliás, segue no mapa do Brasil. Em junho de 2021, o EllaLink começou a funcionar entre Fortaleza e Sines, com 6 mil quilômetros. Fortaleza virou um dos polos dessa rede, com 17 cabos saindo da cidade, segundo a Pesquisa Fapesp. A rota lembra a de 1874, 147 anos depois.
Uma mangueira no fundo do mar
Um cabo desses é bem mais fino do que se imagina. Na maior parte da viagem, tem a largura de uma mangueira de jardim, e as fibras lá dentro são da grossura de um fio de cabelo. Perto da costa, ele costuma ser enterrado. Em alto-mar, fica simplesmente deitado no leito do oceano.
Quem paga a conta também mudou. Antes, os cabos eram de consórcios de operadoras de telefonia. Hoje, Google, Meta, Microsoft e Amazon estão entre os grandes investidores.
Quem corta o cabo? Não é o tubarão
Tubarão mordendo cabo é uma história que rende, e a preocupação era real: o TAT-8 tinha uma pele de alumínio contra mordidas. Mas o peixe não é o vilão: a TeleGeography registra zero falhas causadas por mordidas entre 2007 e 2014.
São cerca de 200 falhas por ano no mundo, e a maior parte vem de pesca e âncoras. As contas variam: a TeleGeography fala em dois terços, e dados mais recentes chegam a 86%. Cada reparo custa de 500 mil a 1 milhão de dólares.
O que mudou e o que continua igual
Em 1858, 98 palavras levavam 16 horas e meia. Hoje, um vídeo chega do outro lado do mundo antes de você largar o celular. Mudou o cabo, mudou o sinal, mudou o preço.
O que continua igual é a ideia de Cyrus Field: para falar com o outro lado do mar, alguém precisa passar um fio por lá. Então, da próxima vez que ouvir que algo está “na nuvem”, lembre que essa nuvem tem endereço, e parte dele fica no fundo do oceano.


