Por que erro de computador se chama bug? Não foi por causa da mariposa

Todo mundo conta que um inseto preso num computador de 1947 deu nome ao bug. O inseto existiu, mas a palavra já tinha mais de 70 anos. Quem usava era Thomas Edison.

O aplicativo do banco trava na hora de pagar a conta. Você liga, e a atendente explica: “foi um bug no sistema”. Você entende na hora, mesmo que bug, em inglês, queira dizer inseto.

Por que um erro de computador tem nome de bicho? A internet costuma responder com uma história ótima: uma mariposa, um computador gigante e uma almirante da Marinha americana. Ela é verdadeira, mas só em parte. A palavra é bem mais velha que o inseto.

A mariposa que ficou famosa

A cena aconteceu em Harvard, com o Mark II, uma calculadora gigante criada por Howard Aiken. Às 15h45 de um dia de teste, a equipe achou uma mariposa presa entre os contatos do relé 70, no painel F.

Relé é um interruptor acionado por um eletroímã (um ímã que liga e desliga com a eletricidade). O Mark II fazia suas contas com esses interruptores abrindo e fechando, peças que se mexiam de verdade. Um bicho no lugar errado bastava para atrapalhar.

Dois esquemas lado a lado: à esquerda, o eletroímã puxa a peça móvel, o contato fecha e a corrente passa; à direita, uma mariposa fica entre os contatos e a corrente para.
Esquema simplificado de um relé funcionando e travado. Ilustração: Escovando Bytes

A equipe tirou o inseto, colou com fita no diário de bordo da máquina e escreveu ao lado: “First actual case of bug being found”, ou “primeiro caso real de bug encontrado”. A mariposa continua lá, na página.

Desenho de uma página pautada com o horário 15:45, a indicação do relé 70 no painel F, uma mariposa presa com fita e a frase da anotação em inglês, com a tradução.
Um desenho nosso, não a página verdadeira. O diário original está no Smithsonian, onde dá para ver a foto. Ilustração: Escovando Bytes

Até a data tem duas versões. O Smithsonian fala em 1947. A legenda da foto no acervo da Marinha americana diz 9 de setembro de 1945, e a própria Grace Hopper contava o caso como de 1945. Só que a Computerworld lembra que o Mark II só entrou em operação no verão de 1947, então fico com 9 de setembro de 1947, o ano que o museu adota.

Repare na piada

Agora leia a anotação de novo: primeiro caso real. Isso só tem graça se todo mundo ali já chamasse defeito de bug. Era como achar um rato de verdade dentro do mouse.

A turma não inventou nada. Só fez a piada que o momento pedia. E essa é a parte da história que quase nunca se conta: a palavra já rodava fazia muito tempo.

O telégrafo de Edison

Em 1873, Thomas Edison tentava mandar quatro mensagens por um único fio de telégrafo. Apareceu um problema chato: quando a corrente mudava de direção, surgia uma falha falsa no sinal, que bagunçava o código Morse.

Edison criou uma peça para isolar essa falha, uma “armadilha de bug”. Segundo os historiadores que escreveram sobre o assunto na IEEE Spectrum, revista dos engenheiros eletricistas, a palavra aparece nos cadernos dele em julho de 1876.

Em março de 1878, ele brincou numa carta ao presidente da Western Union, a gigante do telégrafo, dizendo que tinha achado um “bug” no aparelho. Em novembro do mesmo ano, escreveu a Theodore Puskas que era assim que chamava as pequenas falhas que surgem depois da ideia inicial de uma invenção.

Linha do tempo: 1873, armadilha para o sinal falso do telégrafo; 1876, a palavra nos cadernos de Edison; 1878, duas cartas; 1889, reportagem britânica; 1892, dicionário de eletricidade; 1947, a mariposa de Harvard.
O caminho da palavra até a mariposa, segundo a IEEE Spectrum. Ilustração: Escovando Bytes

Depois disso, o termo ganhou o mundo. Em 1889, um repórter britânico contou que Edison tinha passado a noite atrás de um “bug” no fonógrafo. Em 1892, um dicionário de eletricidade já trazia a definição. E em 1934 a palavra estava no dicionário Webster com esse sentido de defeito.

E por que inseto?

Aqui, ninguém crava. O que os autores da IEEE Spectrum apontam é que Edison foi o grande responsável por espalhar o termo, mas a raiz é mais antiga: vem de palavras do galês, do escocês, do alemão e do inglês medieval para duendes e assombrações. Bug, nesse sentido, é o bicho-papão escondido na máquina.

Combina bem. Quem já brigou com um sistema sabe que às vezes parece mesmo ter alguém lá dentro fazendo pirraça.

E a Grace Hopper?

Muita gente conta que foi ela quem achou a mariposa e criou a palavra. Grace Hopper merece todos os aplausos, só que por outros motivos. Doutora em matemática por Yale, entrou para a reserva da Marinha em 1943 e foi trabalhar com Aiken em Harvard. Em 1952, criou o A-0, um dos primeiros compiladores, programas que traduzem instruções para a língua da máquina. Depois ajudou a criar o COBOL, linguagem de programação. Saiu da Marinha como contra-almirante, aos 79 anos.

Na história da mariposa, ela fazia parte da equipe, mas o Smithsonian avisa que o diário provavelmente não era dela. O que ela fez foi contar muito bem o caso, e por isso ele ficou famoso.

O que sobrou

Até o verbo debug (tirar os bugs, ou depurar) é anterior à fama da mariposa. Ele aparece num periódico de aeronáutica de 1945, e o pesquisador Fred Shapiro acredita que já corria como gíria de engenheiro antes disso.

A primeira turma de programadores entendeu logo o tamanho do problema. Em 1949, na Universidade de Cambridge, Maurice Wilkes percebeu que passaria boa parte da vida caçando erros nos próprios programas. Comecei a programar aos 11 anos e posso garantir: ele acertou. Vale para mim e para todo mundo que programa.

Por isso o bug do milênio tem esse nome, e por isso a atualização do celular promete “correção de bugs”. É um jargão do tempo do telégrafo que sobreviveu a tudo. Os computadores perderam os relés, as mariposas perderam o emprego, e o defeito que ninguém previu continua trabalhando normalmente.

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