A noite em que um computador previu a eleição e ninguém acreditou

Em 4 de novembro de 1952, o UNIVAC cravou a vitória de Eisenhower na TV americana com poucos votos contados. A previsão era tão ousada que ficou escondida por horas.

Noite de eleição, apuração em 30%, e alguém na TV já diz quem vai ganhar. Como dá para saber com tão pouco voto contado?

Essa mania tem data de nascimento. Hoje faz 74 anos que, em 4 de novembro de 1952, a CBS colocou um computador para prever a eleição americana. O resto da noite teve máquina muda, repórter impaciente, um número que não coube no papel e uma previsão que quase ninguém teve coragem de mostrar.

O trauma de 1948

Quatro anos antes, a imprensa americana passou vergonha. As emissoras davam Thomas Dewey como vencedor, e quem ganhou foi Harry Truman. O erro virou a célebre manchete “Dewey Defeats Truman”, do Chicago Daily Tribune.

Para 1952, com a disputa entre o republicano Dwight Eisenhower e o democrata Adlai Stevenson, as redes queriam novidade. Era a primeira eleição presidencial na TV de costa a costa, e Walter Cronkite estreava como âncora de noite eleitoral. Os institutos Gallup, Crossley e Roper tratavam o resultado como empate. Um “cérebro eletrônico” parecia ótima atração. A NBC arranjou o Monrobot. A CBS ficou com o UNIVAC.

O computador que não cabia no estúdio

O UNIVAC era obra de John Mauchly e J. Presper Eckert, a dupla do ENIAC. Foi um dos primeiros computadores comerciais: o primeiro comprador, o Census Bureau, o órgão do censo americano, assinou contrato em 1951. Tinha mais de 5 mil válvulas (peças que faziam o papel que os chips fazem hoje), pesava mais de 7 toneladas e era do tamanho de uma garagem.

Resultado: não saía da Filadélfia. Então a TV improvisou. No Grand Central Terminal, em Nova York, o repórter Charles Collingwood ficava diante de uma maquete do console com luzes piscando. Mais tarde, contaram que as luzes vinham de temporizadores de árvore de Natal.

Esquema com dois blocos. À esquerda, em Filadélfia, o UNIVAC verdadeiro e os programadores. À direita, em Nova York, a maquete com luzes e o repórter. Uma linha de teletipo liga os dois, a quase 160 quilômetros de distância.
O computador de verdade estava longe do estúdio. Ilustração: Escovando Bytes

A memória feita de som

A parte mais curiosa da máquina nem aparecia na TV. A memória do UNIVAC usava colunas de mercúrio. Um cristal de quartzo transformava os dados em ondas de som, que atravessavam o metal líquido até outro cristal. Lá eram lidas, reforçadas e mandadas de volta ao começo. Sem parar.

Pense em alguém repetindo um número de telefone em voz alta para não esquecer. Era isso, só que com sete tanques de mercúrio mantidos em temperatura controlada. Tudo isso guardava 1.000 “palavras” de 12 caracteres: 12 mil letras, algumas páginas de texto.

Esquema da memória de mercúrio: um cristal transforma os dados em som, o som atravessa um tubo de mercúrio, outro cristal lê o sinal e os circuitos o devolvem ao início, em ciclo.
Esquema simplificado da memória do UNIVAC. Ilustração: Escovando Bytes

100 para 1, ou melhor, 00 para 1

A lógica da previsão era simples de explicar: comparar os primeiros resultados com dados de eleições passadas. Quem cuidou do programa foi Max Woodbury, matemático da Universidade da Pensilvânia.

No começo da noite, a máquina ficou muda, e Collingwood reclamou no ar, chamando o computador de mal-educado. Até que, por volta das 20h30, com pouco mais de 3 milhões de votos apurados, veio a resposta: Eisenhower com 438 votos no Colégio Eleitoral (o sistema de delegados que escolhe o presidente), contra 93 de Stevenson. Chance de vitória: 100 para 1.

Só que o papel saiu com 00 para 1. Os programadores tinham reservado dois dígitos, porque nunca imaginaram precisar de três. Se isso soa familiar, é parente de primeiro grau do bug do milênio.

Três casas de número mostrando 1, 0 e 0. A primeira está riscada por não caber no espaço de dois dígitos, e o papel impresso fica com 00 para 1.
O espaço era para dois dígitos, e o 100 tinha três. Ilustração: Escovando Bytes

O número que ninguém quis mostrar

Com as pesquisas falando em empate, aquela goleada parecia defeito. A previsão não foi ao ar. Quem segurou? As versões variam: a NPR e o historiador Ira Chinoy apontam a equipe do UNIVAC, outros relatos citam o diretor de notícias da CBS.

Aí mexeram no programa, e a história racha de novo. Uma versão fala em um fator de “tendência nacional” reduzido de 40% para 4%. Outra diz que alguém digitou um zero a mais nos resultados de Nova York. Seja como for, a tela passou a mostrar algo bem mais comportado: chance de 8 para 7 para Eisenhower e placar de 268 a 263.

Comparação em barras dos votos no Colégio Eleitoral: primeira previsão, 438 a 93; versão ajustada, 268 a 263; resultado real, 442 a 89.
A primeira previsão ficou a 4 votos do resultado. Dados: Wikipédia e Arquivos Nacionais dos EUA. Ilustração: Escovando Bytes

Os votos continuaram chegando, e Eisenhower disparou. Depois da meia-noite, Art Draper, representante da Remington Rand, fabricante da máquina, admitiu no ar: “Estava certa. Nós erramos. No ano que vem, vamos acreditar.”

O resultado oficial: 442 a 89, com 39 estados para Eisenhower. O UNIVAC tinha errado por quatro votos.

Onde a lenda exagera

A história costuma ser contada como máquina genial contra humanos teimosos. Ira Chinoy, que passou anos nos arquivos e escreveu um livro sobre o caso, diz que foi mais complicado. As emissoras usaram os computadores com moderação, e os primeiros números, sem computador nenhum, já mostravam Eisenhower bem à frente. O jornalista Eric Sevareid até se divertiu, no ar, com a máquina que errou por um tempo.

Os humanos também tiveram sua revanche. Em 1956, a ABC pôs o pesquisador Lou Harris, com réguas de cálculo, contra um computador. Harris venceu.

O que ficou daquela noite

Desde 1952, computador e noite de eleição não se largaram mais. Aqui, o trabalho de contar é outro assunto (já expliquei como funciona a urna eletrônica), mas a ideia de olhar uma parte e imaginar o todo está em todo lugar, da previsão do tempo à resposta de uma IA.

Comecei a programar aos 11 anos, e o que mais me agrada nessa história é que ela tem os dois erros clássicos numa noite só. Segundo alguns relatos, a máquina recebeu um dado errado, digitado por gente. E gente esperta desconfiou da resposta certa porque ela parecia estranha demais.

O computador ficou incomparavelmente mais rápido. A pergunta continua a mesma de 1952: quando ele diz algo que você não esperava, o problema está nele ou está em você?

Continue lendoVer tudo →
Newsletter

Bytes de sexta.

Um e-mail por semana com os vídeos novos, os artigos e as histórias que valem seu tempo.